MADRUGADA II

Para ler ouvindo IRONIC - ALANIS MORISSETTE
Como previsto, ele não dormiu bem. Aquela ligação realmente o transtornara. O fluxo de pensamento era contínuo, até que muito tarde conseguira adormecer. Acordara com a sensação de que tinha dormido apenas umas duas horas. Via seu olhar profundo e cansado pelo espelho do banheiro. Decidiu acordar de vez para poder encarar seu maior problema frente a frente. Tomou um banho quente e demorado. Porém isso não o ajudou a esquecer a conversa da noite anterior, a voz do outro ainda ecoava pelos seus ouvidos, ouvia a voz de "Daniel" repetidas vezes, sempre pronunciando as mesmas palavras. Agora estava pronto, cabelo arrumado, seu melhor perfume, e roupas recém passadas, estava impecável. Um sopro de otimismo lhe invadiu o corpo, "talvez seja um bom sinal do que está para acontecer", pensou ele, mesmo ainda não sabendo bem o que estava por vir. Olhou-se no espelho e admirou-se como nunca fizera antes, via sua boca carnuda com orgulho, era claro que seus olhos passavam muito de sua personalidade forte, o corpo ainda saudável e bonito, afinal ele estava em seus 21 anos, se encaixava perfeitamente com a roupa. Deu uma profunda respirada, ligou o motor do carro, pos um CD que talvez pudesse alegrá-lo e partiu. A caminho do antigo café onde Daniel e ele se encontravam, pensava em todos os momentos em que foram um casal. Pensou nas tardes deitados na grama com os amigos em uma tarde de domingo, ou dos cafés quentes que costumavam tomar nos dias frios. E como se fosse a âncora do barco, junto com essas agradáveis lembranças vinham arrastados os momentos da ultima briga, as mentiras, a traição. Mas dessa vez não sentia raiva, nem nojo, não tinha mais mágoas guardadas, estava tranqüilo. Estranhou - Estou tranqüilo demais. Chegando ao café, como esperava, lá estava Daniel sentado na mesma mesa costumeira dos dois. Ele com a cabeça baixa, balançava sua perna freneticamente sob a mesa e batucava com os dedos no tampo sobre a mesma, sinal que ele entendeu como uma demonstração de ansiosidade de Daniel. Aproximou-se sem ser visto e sentou-se. Ligeiramente assustado Daniel esboça um sorriso sem jeito e o cumprimenta. Era agora, talvez uma das maiores conversas de sua vida depois de ter se assumido para os pais. Fitou fixamente os olhos mareados de Daniel, percebeu cansaço e olheiras profundas. Perguntou: - Então, aqui estou, o que de tão importante tinha a me dizer? - Não sei bem como começar... Suspira Daniel. - Hum... desculpas cairiam bem agora. Interrompe ele. - É, isso, primeiro me desculpar por tudo que aconteceu no passado, nunca tive a intenção de te magoar, eu gostava de ambos, não queria te enganar daquele jeito. - Certo. Mas enganou e magoou, em certos momentos cheguei a desejar sua cabeça em uma bandeja. Olhando atentamente para Daniel, via-se um jovem abatido, bem diferente do que ele conhecera tempos atrás, chegou a desconfiar de que Daniel poderia estar doente. - Não precisa ser tão dramático, mas isso não vem ao caso, não quero brigar contigo. Decidi conversar contigo por que ainda gosto muito de você. Nunca consegui te esquecer. Depois que terminamos, meu namoro não deu certo, tu assombrou minha mente. Quero te pedir mais uma chance. Quero me redimir contigo, quero fazer dar certo. Entende?! Nesse momento seu mundo parou, ele não esperava aquelas palavras, foi pego desprevenido. Seu maior medo aconteceu. Aquela pessoa sentada logo ali, na sua frente, estava se desculpando e querendo tentar mais uma vez começar um relacionamento. Tinha medo de ceder e se machucar de novo, pior ainda, pelos mesmos motivos. Permaneceu atônito sem mencionar uma palavra sequer. E como em filmes, flashes de seu passado lhe corriam os olhos. Via Daniel ao seu lado, prometendo amor eterno e logo em seguida se via descobrindo o seu segundo namorado. Relembrava a cena em que propôs a Daniel fazer uma escolha entre os dois e engatada junto, a memória de que ele não havia sido o escolhido. Sim, claro! Não poderia faltar, ver os dois juntos no mesmo café que hoje eles se encontravam, conversando ao ouvido. E em um instante fora puxado de volta a realidade pela voz de Daniel: - Então o que me diz?! O que você achou da minha proposta?! Está disposto a me perdoar?! Fixou mais uma vez seu olhos no do outro. Agora passado o choque levado, ele estava raciocinando de novo. Via que sentado a sua frente não estava mais o mesmo Daniel que ele conhecera há oito meses atrás. Estava alguém sem graça, humilhado e inseguro.
E nesse momento teve a maior das revelações, olhando fixo, via que Daniel nunca tinha sido diferente, ele sempre fora do mesmo jeito que se encontrava ali agora, uma pessoa insípida, insossa. A diferença era que hoje ele não tinha mais nada atrapalhando sua visão, tudo estava mais nítido que nunca, via por completo todos os defeitos e as poucas virtudes de Daniel. Percebeu também que nunca o amou, o que ele pensava ser amor era apenas carência.
Então ele se viu livre, estava pronto pra partir, pra começar de novo, seguir sua vida. Em um futuro que Daniel já não fazia mais parte.
Sorriu com carinho e disse:
- Dan, o que você me propôs era a última coisa a passar pela minha cabeça. Não esperava ouvir isso hoje.
- E isso seria bom ou ruim?! Interrompeu Daniel
- Depende pra quem... pra mim está sendo ótimo, mas temo que pra ti não vá ser tão agradável assim. Ver hoje você se desculpando me fez ter um outro ponto de vista. E sei com certeza absoluta de que você não é o tipo de pessoa que eu procuro mais.
- Mas...
- Me deixa terminar sim?! Eu não quero mais nada contigo, as coisas boas que a gente passou irão ficar guardadas no passado, e as ruins te perdôo por elas. Mas nada muda o que aconteceu, não quero mais namorar contigo, não quero nem ser seu amigo. Desconfio que essa vá ser a última vez q iremos nos ver.
Daniel atônito, não sabia o que dizer, apenas olhava para o nada, com a boca semi-aberta. Como quem também não acreditasse no que acabara de ouvir.
Ele sorriu, fez um carinho no ombro de Dan, e partiu. Não olhou pra trás, não queria virar estátua de sal, queria deixar os fantasmas do passado descansarem em paz. E se livrar de todas as assombrações. Estava livre novamente, sentia que poderia voar se quisesse. Era ainda cedo, o sol matinal brilhava alto, se sentia feliz pela primeira vez em muito tempo.
Depois desse encontro, eles se viram algumas vezes, de relance. Porém nunca mais se falaram ou trocaram olhares. Para ele tudo estava certo, perfeitamente certo. Para Daniel, não se sabe.

1 Comments:
Eu tava triste antes de ler esse texto... agora só piorei...
Belo texto, mas triste...
Espero que com você as coisas estejam melhores do que comigo.
beijo enorme
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