01 Fevereiro, 2006

REVIRAVOLTAS

Pensava sozinho em seu apartamento. Havia tomado uma decisão. Decidira nunca mais ser o mesmo, não queria passar por tudo novamente. A ferida ainda estava latente. Chegou a pensar que assim ficaria para sempre, como uma chaga, um estigma.
Deixou no passado o menino ingênuo, que se fascinava com grandes histórias de amor. Estava consciente de que um sapo sempre seria um sapo, e que o cobiçado príncipe em seu cavalo branco não passavam de um mito inventado pra iludir velhas feias, virgens e encalhadas.
E nesse ponto sua vida realmente deu uma reviravolta. Não era mais vítima de ninguém, se tornara então o "assassino". Separou amizades de sexo, aboliu o amor. Estava realizado, completo, se sentia superior. Seus sentimentos, sua essência não estava mais à mostra. Isso não era mais necessário, queria amantes e não amores. Queria uma noite de sexo, e não queria ninguém pra dividir sua cama durante o sono.
E por citar sua cama, esta sim, era mutável, pois cada corpo que por lá passava deixava seu cheiro de suor e as marcas de esperma. E estes tão efêmeros, eram varridos juntos com os lençóis e atirados em um canto. Onde repousariam em sua insignificância.
Muitos se apaixonaram por ele. E ele como o predador que era, fixava seu olhar seco e sem emoção na presa e dizia: - Nunca te iludi, nunca te dei falsas esperanças. Quando disse que só queria trepar você aceitou, cumpri o acordo...a propósito suas roupas estão ali em cima da cadeira. A estrutura da frase era basicamente essa, talvez mudando alguma palavra ou outra. E nesse momento ele se sentia poderoso, ver a decepeção estampada num rosto, que ele não queria nem saber o nome, era de certa forma gratificante. Aquilo tudo era como um imenso curativo para o machucado impregnado em seu espírito. Pensava naquilo como uma anestesia pra sua dor. Porém assim como a morfina, tinha efeito passageiro e viciante.
Em pouco tempo ele necessitava de mais e com um intervalo cada vez menor. Os curativos ficavam velhos mais cedo. E ao cair revalavam as maras, ainda latejando como há muito tempo atrás.
Mas estranhamente nossas vidas são escritas de forma torta e por vezes com uma ironia requintada de crueldade. E a dele não poderia ser diferente. Quando menos esperava, quando seu vício, o seu "remédio", estavam mais ativos do que nunca. Ele se depara com alguém que lhe nega o sexo, e que de uma forma cativante consegue prender sua atenção. Ele precisa conhecer aquela criatura profundamente. Pensa que poderia passar horas perdido naqueles olhos doces. O mesmo tipo de olhar que uma vez ele tivera, naquele passado distante que resolveu esquecer. Se olhava no espelho e seus antigos olhos pareciam voltar, o menino que estava enterrado dentro dele fazia força para escalar à superficie.
- Estou louco! dizia. Isso não era pra nunca mais acontecer, não te quero de volta!! Vá embora!!!
Mas as vezes não podemos controlar o que sentimos, ele se apaixonou de novo, sentia um abraço quente e acolhedor durantes suas noite. Não era mais o lobo solitário caçando a ovelha mais gorda. Toda imagem construida durante esse tempo se despedaçou em milhares de pedaços. Agora ele estava novamente nu, desprotegido. O medo de se ferir não mais o assustava, ele podia gozar da sua liberdade.
Os curativos foram todos jogados fora, pois o que antes sangrava agora estava curado, e não deixara nem cicatriz.
E assim são as dores do amor, passageiras, não digo que esqueceremos tudo o que foi passado. Não, isso é impossível. Apenas aprendemos a selecionar os bons momentos passados, perdoamos e aprendemos com os maus e seguimos com a vida. E é isso mesmo que ela é, um trajeto difícil, com espinhos e montanhas pela frente, após quedas levantamos mais fortes e mais espertos. Consciente de que outros tombos virão mas que com certeza levantaremos novamente.

2 Comments:

Blogger Jimmy Astley said...

Perfeito este texto.

Eu sempre fui a vítima. Gostaria um dia de ser assassino, assim como o rapaz do texto...Mas algum dia eu consegui? Não... Sou muito mais fraco do que gostaria de ser.

Tenho MSN sim :
b_o_y20@hotmail.com

abraço

02 Fevereiro, 2006 01:44  
Anonymous Jeffe said...

Bah!!!! adorei o texto, algo bem real, que acontece todos os, ja fiz os dois papeis, num certo momento de minha vida, hoje isso é passado..

obrigado pela visita no blog, estou voltando novamente ao mundo blogistico..

abração, voltarei mais vezes

02 Fevereiro, 2006 12:05  

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